

O velho ditado sobre o “Hospício” da NASCAR nunca fez tanto sentido. O Bowman Gray Stadium, aquele palco imprevisível e tradicional do automobilismo americano, viveu mais um capítulo de loucura e história na noite de quarta-feira, com o Cook Out Clash 2026. O evento, adiado por uma tempestade de inverno brutal, trouxe neve, granizo, pista encharcada, 17 bandeiras amarelas e quase três horas e meia de pura adrenalina. No fim, Ryan Preece emergiu como vencedor de uma das corridas mais bizarras da história recente da NASCAR Cup Series.
O adiamento e o esforço épico para realizar a prova
Originalmente marcado para o domingo, o Clash foi empurrado por uma semana por causa de quase 30 centímetros de neve que caiu na região da Tríade do Piemonte, na Carolina do Norte. Estradas intransitáveis, frio congelante e neve acumulada no próprio estádio tornaram o fim de semana inviável. Mas a NASCAR não desistiu. As equipes trabalharam incansavelmente por dias, limpando pista, arquibancadas e arredores, para que a corrida pudesse rolar no meio da semana. E o público? Mesmo com o frio cortante e a chuva, lotou as arquibancadas, mostrando que o espírito do automobilismo é resistente.
Treinos e classificação: foco na adaptação rápida
Com tempo de pista escasso e o clima instável desde o início do fim de semana, os treinos se concentraram em se adaptar ao oval curto e buscar controle, em vez de velocidade pura. Na classificação, Kyle Larson, o atual campeão da Cup Series, foi o mais refinado em uma volta rápida e garantiu a pole. Em um circuito de apenas um quarto de milha, aquela posição de largada parecia crucial, dada a dificuldade de ultrapassagens.
Formato da prova e as repescagens emocionantes
O Clash reuniu 23 pilotos, selecionados por concursos esportivos e corridas classificatórias. Josh Berry, pelo segundo ano seguido, garantiu seu lugar na prova principal ao vencer a repescagem, derrotando AJ Allmendinger. Austin Cindric pegou a segunda vaga em um duelo acirrado com Corey LaJoie, decidido nos metros finais.
A corrida: um teste de sobrevivência em meio ao caos
A prova principal, com 200 voltas (cerca de 80 km), virou logo um desafio de resistência. As primeiras 100 voltas rolaram em pista seca, com disputas intensas e vários acidentes. Kyle Larson liderou 67 delas, o maior período da noite, enquanto Ryan Preece se mantinha firme no meio do pelotão. Mas tudo mudou na metade da corrida, quando a chuva com granizo caiu, forçando a troca para pneus de chuva da Goodyear.
A pista virou uma armadilha de escorregadia, obrigando os pilotos a abandonarem a linha baixa tradicional e optarem por trajetórias mais altas, onde o asfalto estava um pouco menos traiçoeiro. As constantes constantes — aquelas 17 bandeiras amarelas — não contavam para as voltas totais, mas devoravam combustível. Tanto que a NASCAR autorizou uma parada extra para reabastecimento, depois de vários carros ficarem no seco.
A virada brilhante de Ryan Preece
Largando em 18º, Preece avançou com calma, evitando confusões e aproveitando as relançadas. O ponto de virada ocorreu na volta 156, quando ele assumiu a liderança de Shane van Gisbergen logo após uma bandeira verde. Nas últimas 45 voltas, ele dominou com maestria. Após a reportagem final, na volta 182, abriu vantagem e cruzou a linha de chegada 1.752 segundos à frente de William Byron, selando a vitória.
Resultado final e o que ficou para trás
Top 10 do Clash da NASCAR 2026:
- Ryan Preece
- William Byron
- Ryan Blaney
- Daniel Suárez
- Denny Hamlin
- Chase Briscoe
- Austin Dillon
- Chris Buescher
- Ross Chastain
- Alex Bowman
Kyle Larson, que largou na pole e liderou boa parte, terminou apenas em 16º, prejudicado pelas condições extremas após uma troca de pneus.
Um marco histórico para Preece
Com essa vitória, Ryan Preece se tornou o terceiro piloto da história a vencer o Clash antes de uma vitória oficial na Cup Series, ao lado de Jeff Gordon e Denny Hamlin. Ele também estendeu a sequência de vitórias distintas do evento para nove consecutivas. Emocionado no pódio, Preece falou sobre o peso da conquista, especialmente após os altos e baixos da carreira, como o fim da Stewart-Haas Racing em 2024 e sua mudança para a RFK Racing.
Mais que uma simples exibição
Mesmo sem pontos no jogo, o Clash 2026 entregou o que prometia: espetáculo, teste de limites e uma lição sobre quem está pronto para o inesperado. Em condições que dificilmente se repetirão na temporada, o Bowman Gray Stadium reafirmou seu lugar como um dos circuitos mais únicos do mundo. Entre neve, chuva, granizo e a escuridão da noite, a NASCAR deu o pontapé inicial em 2026 com um evento que ganha na memória.
Texto/tradução: Ana Elisa
Informações: Nascar





