Content Day IndyCar parte 2

Entre maturidade, continuidade e novos começos: o rumo da IndyCar para 2026

O Content Day da IndyCar deixou uma coisa bem clara: a temporada de 2026 vai ser mais sobre colocar as ideias em prática do que sobre promessas mirabolantes. Em uma grade cada vez mais equilibrada, três histórias pessoais ajudam a captar o clima da categoria. Há o fortalecimento de Felix Rosenquist na Meyer Shank Racing, a caça por consistência de Santino Ferrucci na AJ Foyt Racing e o reinício de David Malukas em um dos ambientes mais duros do automobilismo, a Team Penske. São caminhos diferentes, mas todos convergem para o mesmo ponto: cada um sabe exatamente onde precisa melhorar.

Felix Rosenquist: subindo o nível em um grid no limite

Com sua oitava temporada na IndyCar e a terceira na Meyer Shank Racing, Felix Rosenquist é no auge estatístico da carreira. O sexto lugar no campeonato de 2025, o melhor desde que estreou, trouxe uma dose de confiança — mas nada de acomodação. “O ano passado foi o melhor que já vivi, tanto para mim quanto para a equipe. Mas, olhando para trás, vejo que ainda há frutos simples de colher”, diz ele.

Rosenquist sabe que o cenário de 2026 vai tornar as coisas ainda mais complicadas. É o último ano do regulamento atual, o que tende a apertar a grade e deixar menos espaço para erros. Na MSR, o foco está nos detalhes: mais estabilidade nos ovais, pit stops mais refinados e transformar pódios em vitórias. A confiabilidade mecânica de 2025 — sem abandonos por falhas técnicas — foi um passo à frente, mas não o suficiente para brigar pelo topo.

Outro aspecto chave é a relação com Marcus Armstrong. Rosenquist destaca que a falta de ego é fundamental em equipes de dois carros, especialmente quando o objetivo é levar ambos à vitória. Ele descreve o ambiente como uma “família”, ou que vê como uma vantagem competitiva. Fora da pista, 2026 traz uma mudança pessoal: ele vai ser pai pela primeira vez, com a filha chegando em maio, durante o mês de Indianápolis. Com bom humor, brinca que talvez seja o “segredo” para alcançar Alex Palou — o benchmark do grid hoje.

Falando em Palou, Rosenquist é direto: o espanhol elevou o patamar da categoria. Hoje, terminar regularmente no top 10 não basta mais. Para disputar títulos, é preciso estar no pódio quase toda corrida.

Santino Ferrucci: estabilidade como prioridade na AJ Foyt Racing

Aos 27 anos, Santino Ferrucci já é visto como um dos veteranos do grid — e ele mesmo acha graça disso. Iniciando seu nono ano na IndyCar, ele vem de seu melhor período, com dois pódios e quatro top 5 em 2025. Para 2026, o papo é de continuidade. Pela primeira vez em anos, a AJ Foyt Racing entra na temporada sem grandes mudanças na engenharia ou mecânica, algo que Ferrucci considera crucial para voltar ao nível de 2024. “Não houve rotatividade de funcionários, mecânicos ou engenheiros. Construir sobre essa base vai ser fundamental”, afirma.

A chegada do brasileiro Caio Collet como parceiro também é vista com bons olhos. Ferrucci elogia a comunicação fácil e os estilos de pilotagem semelhantes, algo raro em um histórico de trocas constantes de companheiros. Tecnicamente, ele é autocrítico. Admita que muitas inconsistências de 2025 vieram de erros evitáveis, especialmente na classificação. O foco agora é transformar bons ritmos de corrida nas melhores posições de largada — encontrar o “101%” e saber recuar para os “98%”, como ele explica.

Além do desempenho, 2026 tem um lado simbólico forte para o piloto. A parceria com a Homes For Our Troops, apresentada durante toda a temporada, transforma o carro nº 14 em uma plataforma de apoio aos veteranos norte-americanos feridos após 11 de setembro. Ferrucci não esconde o orgulho de representar essa causa.

David Malukas: um novo capítulo no ambiente mais exigente do grid

Se Rosenquist simboliza maturidade e estabilidade Ferrucci, David Malukas representa o recomeço. Após uma fase turbulenta com lesões, trocas de equipe e um retorno tardio em 2025, o piloto começa 2026 como novo membro da Team Penske, no carro nº 12. A adaptação, segundo ele, tem sido surpreendentemente suave. “É a primeira vez em uma pré-temporada que não estou pensando demais e me sinto super preparado”, conta.

Malukas destaca a preparação intensa, a mudança para Charlotte e o acesso a recursos que devem acelerar o processo. Embora reconheça a pressão de pilotar pela Penske, ele deixa claro que o foco é construir seu próprio legado, sem comparações diretas com nomes como Will Power. A experiência difícil de 2024 é vista hoje como um divisor de águas. “Naquele ano, envelheci 10 anos em um só. Ganhei maturidade e mentalidade”, diz.

Essa bagagem emocional, somada ao ambiente altamente estruturado da Penske — que ele descreve como “perfeito demais” —, cria um clima de expectativa, mas também de cautela. O objetivo é começar forte, sem pressa, sabendo que o encaixe total vai levar tempo. Entre as novidades do calendário, Malukas cita Arlington como a pista que mais o anima, apostando no potencial do evento e no layout inédito.

Uma temporada decidida nos detalhes

As declarações de Rosenquist, Ferrucci e Malukas pintam um quadro nítido da IndyCar nas vésperas de 2026: não há atalhos. Numa categoria onde todos têm acesso a equipamentos semelhantes, a diferença está na soma de pequenas melhorias — execução nas caixas, gestão de pneus, comunicação interna e atualização emocional. Com novos circuitos, o último ano do regulamento e uma grelha cada vez mais homogénea, a temporada promete ser menos sobre quem é mais rápido num sábado e mais sobre quem erra menos ao longo dos meses.

E, como os próprios pilotos admitem, isso exige algo além do talento: paciência, disciplina e um nível de conforto com o desconforto que definem a IndyCar moderna.

Por Ana Elisa Moreno @ana_arquiteturaevelocidade

 

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